RIP Roberto Bolaños: Uma análise do que está escondido em Chaves e Chapolin

512x174px-Banner-GrandÉ verdade que parei para escrever sobre Roberto Bolaños só agora que ele faleceu, aos 85 anos, em Cancún, cidade mexicana onde morava. Porém não vi momento mais apropriado para ver, com outros olhos, as obras deste homem – por isso, assisti um pouquinho de Chapolin e Chaves por esses dias e cá estou para dar algumas visões que fogem da superficialidade presente no cortiço e barril.

Não contávamos com sua astúcia, Bolaños!

O humor criado e eternizado por Roberto Bolaños não era simples e infantil. Se assim fosse, não teria ultrapassado a qualquer barreira espaço-temporal – já que crianças assistem e até hoje dão risada junto com seus avós – e de classes sociais, uma vez que muitos pequenos que começaram assistindo já foram para a faculdade, se formaram e hoje são ricos e igualmente fãs do super herói baixinho que veste vermelho, por exemplo.

A figura do Chapolin pode-se dizer bastante “revolucionária” para o momento o qual surgiu: em meio a heróis pipocando de todos os lados – todos com espírito altruísta, bons homens dispostos a dar a vida pelo próximo, que levavam uma vida dúbia entre seus superpoderes e sua identidade civil; força e inteligência invejáveis – surge um baixinho metido a espertalhão, covarde e atrapalhadíssimo que, quando chega, a confusão é sempre maior do que se ele não estivesse por lá. Essas características nos levam a uma relação de total empatia e, ao mesmo tempo, individual e inédita: todos nós podemos ser Chapolins, ou até melhores; logo, tão “heróis” quanto – inclusive de grandeza igualmente duvidosa, mas icônica. Humanos, com poderes suficientes para usar uma marreta biônica.

Outra vez flores? Outra vez café?

Tanto ele quanto o Chaves estão embasados numa superficialidade estética muito simples (diria até que na medida mais do que ideal). Desde cenários até as roupas usadas pelas personagens, todas as escolhas foram escolhidas com cuidado e dispensando qualquer tendência da época – o fim dos anos 60 e década de 70 e o colorido, a boca de sino, as estampas, etc. Dispensar os penteados inovadores e as características que datariam as obras colaboram para toda a atemporalidade que ganharam as personagens. Este é um dos vários fatores que permitiram o lugar privilegiado que ocupam na história latino-americana.

Outro motivo pelo qual passamos horas olhando para aquela vila na televisão é: As personagens se parecem muito com alguém que conhecemos. O Bolaños se preocupou em dar esse tipo de vida à Chiquinha, Seu Madruga, Dona Clotilde justamente porque naquele cortiço deveria morar o que há de mais comum e verdadeiro em matéria de essência humana. O resultado de todas estas escolhas felizes é este que assistimos até hoje – e quiçá nossos netos assistirão, esperando conosco que o Quico ganhe a bola quadrada, que o Seu Madruga pague os quatorze meses de aluguel atrasado e que o Professor Girafales traga outro presente para Dona Florinda que não flores.

E zaz!

Chaves enreda, portanto, algo muito menos inocente e infantil do que simples trapalhadas do dia a dia numa dada vila mexicana. Roberto Bolaños fez uma representação genial das diversas maneiras do Eu enxergar o Mundo. Não há nada de raso nisso, muito pelo contrário, pois não se trata de personificações de acontecimentos externos, mas sim a exteriorização de aspectos puramente humanos que impulsionam e se confundem com os acontecimentos sociais. Trocando em miúdos, é da vila para o mundo, não o contrário. Por isso que não vemos tramas baseadas em situações infantis, mas sim o modo infantil com o qual se relaciona com a existência do outro – e assim a relação de amor e ódio entre os moradores da vila, a cooperação e a inveja, a avareza e generosidade, a honestidade e o “jeitinho”.

Os episódios, partindo deste princípio, falam de tal complexidade usando a linguagem mais comum, provocam o riso pelas quebras de expectativas mais simples e ao mesmo tempo geniais, os trocadilhos acontecem sem qualquer erudição e as tramas são todas bem pensadas e nada convencionais – todas para compensar as personagens nitidamente tipificadas: o Seu Barriga é o mais rico e, no entanto, mais generoso; Dona Florinda é a arrogante; Seu Madruga o acomodado; Chiquinha é a astúcia, Quico o mimado… Esses tipos são o estopim para levarmos nosso cotidiano para o pátio da vila, admitirmos a empatia gigante que temos por cada morador e lembrarmos “poxa, a Dona Florinda age exatamente como minha vizinha do apartamento tal”.

 

Prefiro morrer do que perder a vida!

Não é certo nem justo que nos lamentemos pela “morte do Chaves”. Por tantos motivos já explicitados, sabemos que tanto ele quanto o Chapolin continuarão eternos, porque sussurram, a todo bordão, muito da nossa humanidade. O fato do Chaves na verdade não ter um nome (o seriado chama-se “El Chavo Del Ocho”, ou seja, “O Moleque do Oito”, que faz molecagens; portanto, cha­mam-no apenas de “Moleque” – o nome “Chaves” é uma adaptação brasileira) indica que ele não é determinado – sempre será suficientemente universal e parte de todas as nossas molecagens.

 

Descanse em paz, Roberto Bolaños.

Avalie

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *